Um Debate Democrata

1 02 2008

Hugo Gaspar

O Kodak Theatre localizado em Hollywood, habituado a receber cerimónias de Óscares, Emmy Awards e uma grande variedade de eventos e artistas, foi palco para um excelente debate, marcado sobretudo pela cordialidade entre Hillary Clinton e Barack Obama.

A imponência do local e a associação natural que é feita a grandes eventos, próprios da enorme indústria dos audiovisuais que prolifera nesta zona da Califórnia, adequou-se na perfeição não só ao debate em si, mas a todo o tipo de aspectos organizativos, ao modelo de debate, aos jornalistas e à audiência, que ocupava os cerca de 3400 lugares disponíveis. Nesta, e através da transmissão na CNN pude ver muitas caras que me são familiares, um longo número de actores assistia com atenção à troca de argumentos entre os dois Democratas. Nos momentos, verdadeiramente alucinantes do ponto de vista televisivo que antecederam o debate, passavam imagens dos apoiantes de ambos os candidatos na rua, várias centenas.

Destaco, antes de me debruçar na análise ao debate em si, o modelo de debate. Aparenta não seguir grandes regras, embora se saiba que são discutidas ao ínfimo pormenor. Os jornalistas imprimem um dinamismo muito grande, o que leva a que o espectador se sinta atraído. As perguntas são inteligentes, e sobretudo pertinentes, não se cai no cinzentismo e excesso de formalidades entediantes, que na minha opinião norteiam e fazem escola, na maioria dos debates nas eleições portuguesas.

Barack Obama e Hillary Clinton ontem também contribuíram para que o debate fosse interessante. Aparentavam uma boa disposição, riram-se das tiradas com mais humor, que cada um protagonizou, transpiravam confiança.

Ambos, quando questionados sobre variados assuntos, respondem directamente aquilo que lhes é perguntado. Não se refugiam em retóricas gorgianas, não se perdem em raciocínios que não levam a lado nenhum, são objectivos e usam uma linguagem acessível. Se são populistas? É capaz, mas são de uma forma saudável e que me agrada particularmente. Ontem por momentos, tive a sensação de não estar a ver um debate entre dois políticos, mas sim um qualquer programa de entretenimento made in USA. Não que isso signifique algo de errado, eu é que eu tenho referências desajustadas.

Dizer que ontem um dos candidatos foi claramente vencedor não me parece correcto. Hillary pareceu-me melhor, com um discurso mais fluido e muito à vontade quando por exemplo fala do Sistema de Saúde. Respondeu com grande astúcia e humor, que não pareceu deslocado, quando questionada sobre como poderia falar de mudança, quando nas últimas décadas, duas famílias tinham dominado a Casa Branca. A resposta é sublime: “It did take a Clinton to clean up after the first Bush, and I think it might take another one to clean up after the second Bush”.

Obama, esteve melhor na questão da Guerra do Iraque. Os argumentos de Clinton aqui, acabam sempre por parecer desculpas. Obama tem o trunfo de ter sido contra a Guerra no Iraque, e sempre que ao longo das Primárias este assunto é referido, aproveita bem do ponto de vista estratégico para fazer valer as suas posições no passado.

Parece-me sobretudo que foi o debate que deveria ter sido. O debate que antecede a Super Terça-feira, onde mais de 20 Estados vão a votos. Sereno, esclarecedor e claro, na minha óptica pessoal, muito inspirador.

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