O “epitáfio” de Clinton

28 07 2008

João Esteves

Sócio ITD

Retomamos hoje os nossos comentários neste Observatório que tanto tem contribuído para fomentar o interesse e a discussão sobre as (decisivas) eleições presidenciais norte – americanas. Muito sucedeu desde o nosso último texto, tendo sido o facto mais relevante a vitória de Obama nas primárias democratas.

Neste momento, com a frieza e o discernimento que o decurso do tempo propicia, podemos extrair algumas ilações do duelo Obama – Clinton. A saber:

  1. Confirma-se a tese que aventámos nos primeiros textos que aqui escrevemos relativa à  sobrevalorização dos números, das estatísticas, das probabilidades por parte das candidaturas. A redução da política à mera matemática, atribuindo o favoritismo a uns ou outros, muito antes das campanhas arrancarem, e – mais grave – a confiança cega que os candidatos depositam nos números, só se pode saldar numa rotunda derrota. Ora, Hillary iniciou a campanha com a convicção de que seria um passeio triunfal, a sua glorificação. Consequentemente, adoptou um discurso e uma atitude que aparentavam uma profunda arrogância, petulância e desprezo pelos seus adversários – o que é sempre encarado de forma negativa pela opinião pública. E, como se sabe, politicamente, aquilo que parece, é…
  2. Hillary Clinton colocou o enfoque na experiência, no passado – e criticou a mudança, essa palavra que granjeou popularidade a Obama. Como se denota, Hillary não conseguiu entender o sentimento do povo americano. Este aspirava a uma mudança, uma ruptura com um passado recente que – estou certo – terá sido o período mais difícil para os EUA, desde a afirmação do mundo unipolar. A derrota no caucus do Iowa gerou apreensão na candidatura de Hillary, que iniciou, desde esse momento, uma fase da sua estratégia pautada por demissões dos responsáveis pela campanha, tergiversações, hesitações. Pior: fez ressuscitar o marido, Bill Clinton. Erro crasso: aumentou o receio (bem real) de um regresso ao passado, de soluções velhas para resolver problemas novos. Já para não falar das tiradas excessivas e desprovidas de sentido de Bill…
  3. Por vezes, em política, a forma do discurso é quase tão importante quanto o seu conteúdo. Passo a explicar: Hillary, em termos programáticos, foi mais consistente e objectiva do que Obama. Ainda hoje, temos dificuldades para saber o que pensa efectivamente o candidato democrata, registando-se já um desvio para o centro. Porém, há momentos históricos em que as nações precisam mais de esperança e confiança do que grandes discursos sobre economia ou finanças. A situação do país já é negativa – não é necessário que o líder relembre sistematicamente esta realidade já dolorosa por si. Este fenómeno não é original nos EUA : Ronald Reagan é eleito Presidente numa conjuntura complexa, assentando os seus discursos na recuperação da moral da pátria, da religião e do sentimento patriótico – e ficará para a história como um dos mais marcantes presidentes americanos. Ou, mesmo Jimmy Cárter antes, representava uma nova esperança pelo seu perfil singular – um plantador de amendoins da Geórgia – , embora a sua governação não tenha sido tão memorável…Esta última ilação deve ser tomada em conta pelos políticos europeus, inclusive os deste país situado no extremo ocidental da Europa…

Penso que Obama não cairá no erro de escolher Hillary Clinton para formar o seu ticket. O vice-presidente deve ser alguém com um perfil político mais discreto. Considero, pois, que a nível federal, Hillary Clinton está politicamente morta. Paz à sua alma – o mesmo é dizer, que continue a desempenhar adequadamente as suas funções de Senadora de New York…

P.S- É claro que poderá ressuscitar qualquer dia. Em Portugal, há políticos que são piores que os gatos – têm mais de sete vidas… e não é preciso puxar muito pela memória. Afinal de contas, eles andam por aí…


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