Estará Obama a tornar-se conservador?

6 08 2008

João Esteves

Sócio ITD

Nos últimos dias, as críticas à deriva qualificada como conservadora de Barack Obama têm-se avolumado. No cômputo geral, as críticas a Obama assentam em três premissas:

1.- Contradição entre o discurso adoptado no início da campanha e o adoptado na fase posterior à desistência de Hillary;

2. – Tal contradição vai induzir descrença e dissuadir a base de apoio de Barack Obama na 1.º fase;

3. – As expectativas geradas em todo o mundo de que Obama seria o propulsor das mudanças de que os EUA necessitam sairiam, afinal, goradas. Concluem, pois, que com o candidato afro – americano nada de substancial vai ser objecto de alteração.

Ora, com o respeito que as diversas análises merecem da nossa parte, revelam-se totalmente desajustadas. Vejamos porquê.

1. É certo que o discurso de Obama sofreu variações após a confirmação da sua vitória nas primárias do Partido Democrata – dirige-se, actualmente, mais para o eleitorado do centro, enquanto que, no início da campanha, visava captar mormente o eleitorado de esquerda.

Muitas das críticas desferidas a Barack Obama têm origem na visão idílica deste candidato que muitos construíram no dealbar das eleições primárias. O candidato democrata era apresentado como um revolucionário, como uma ruptura dos EUA com o seu passado não apenas recente, quase como um “Karl Marx” (com as devidas proporções, claro!), como a esperança dos oprimidos pelo “capitalismo selvagem” norte – americano, blá, blá, blá… e a ladainha do costume que certamente todos conhecem.

Mas a verdade é que Obama é um político com as mesmos objectivos de qualquer outro – conquistar e exercer o poder. Neste sentido, o discurso de Obama é diferente porquanto a lógica das duas fases da campanha também é distinta.

Com efeito, primeiramente Obama tinha de surgir hasteando a bandeira da renovação, personificando a esperança, marcando aquilo que o difere do status quo da política norte – americana. E conseguiu: atraiu jovens e eleitores descontentes com a política e o rumo que o seu país está a seguir.

Diferentemente, após consumada a vitória sobre Hillary Clinton, o candidato democrata teve de centrizar o seu discurso com o escopo de garantir o voto dos eleitores mais moderados, sem os quais jamais poderá ser o próximo Presidente dos EUA. Dir-se-á que com esta estratégia Barack Obama acabará por perder o apoio daqueles que tornaram possível a sua vitória nas primárias. Será mesmo assim? Cremos que não.

É que não podemos ignorar que há outro candidato: John McCain. Ora, o candidato republicano vai muito plausivelmente radicalizar o discurso, de colocar o acento tónico em questões típicas da Direita política, económica e sociológica. Aliás, já começamos a verificar afloramentos desta opção: pense-se na questão dos incentivos às off – shores. Pense-se na ênfase colocado na protecção dos direitos dos seres humanos ainda não nascidos, na entrevista à Newsweek na edição da semana passada. Já para não mencionar que a escolha para Vice – presidente recairá quase de certeza num elemento da ala mais direitista do GOP (Mitt Romney?). Subsequentemente, Obama, ao moderar o discurso, consegue aglutinar o apoio dos sectores mais moderados, sem perder a sua base de apoio mais à esquerda que, podendo não subscrever as suas propostas em determinados pontos, vai recorrer ao voto útil. Concretizando: a ala esquerda vai votar em Obama para, pelo menos, evitar que McCain chegue à White House.

2. No que concerne à reacção dos países desiludidos por Obama não ser, afinal, tão esquerdista quanto desejavam (sobretudo daqueles cujas relações com os EUA se encontram numa fase de alguma turbulência), há que encará-las com relatividade.

A moderação de Obama, em termos de política Externa, é um sinal positivo. De facto, para a União Europeia, cuja política externa e de defesa depende largamente dos EUA, é mais fácil chegar a consensos e cooperar com as políticas de um Presidente moderado do que com um esquerdista. Não nos esqueçamos de que o isolacionismo não é apenas defendido pelos políticos mais à direita – há muito auto – proclamados sectores esquerdistas norte – americanos que o subscrevem.

3. Em suma, Barack Obama não pode, de forma alguma, ser catalogado como conservador. Até porque não partilha os valores essenciais para se considerar como tal: a baixa de impostos (hoje mesmo propôs mais um imposto sobre as petrolíferas), valores tradicionais, política externa na perspectiva da linha falcão.

Acrescente-se, ainda, que não deixa de ser curioso que são aqueles que afirmavam que Obama não reunia condições para derrotar Hillary Clinton porque era demasiado à esquerda e a sociedade americana é mais conservadora que a europeia, são exactamente os mesmos que criticam o candidato democrata por moderar o seu discurso… Dois pesos, duas medidas.


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