IRAQUE: CAMPO DE BATALHA DA CAMPANHA ELEITORAL NORTE-AMERICANA

5 09 2008

Rui Roque

Investigador Instituto Transatlântico

Apontada como via primordial para garantir tanto a segurança interna como a defesa dos interesses americanos no mundo, a necessidade de combater o terrorismo a uma escala global tem sido uma das bandeiras da administração norte-americana desde os trágicos eventos de 11 de Setembro de 2001, prioridade essa que, para além de pautar a política externa dos Estados Unidos, encontrou igualmente um nível de acolhimento praticamente consensual na respectiva opinião pública. De facto, tal base alargada de apoio revelou-se determinante no processo de tomada de decisão relativamente à intervenção militar no Iraque, iniciada em Março de 2003, uma vez identificado o regime de Saddam Hussein alegadamente como uma das principais ameaças à segurança mundial.

Actualmente, volvidos que são cinco anos de operações militares naquele teatro, ainda que os elevados custos envolvidos – sobretudo em vidas, mas também de ordem financeira – não tenham ainda transformado a guerra no Iraque numa questão fracturante no seio da sociedade norte-americana, é evidente a razão directamente proporcional que se verifica entre o crescimento do número de vozes dissonantes e a aparente incapacidade política de, no mínimo, projectar um ponto final para o conflito.

Assim, será perante um eleitorado cada vez mais influenciado pelo lento regresso dos fantasmas de um esforço de guerra sem fim, provenientes de um passado ainda doloroso a apenas quatro décadas de distância, que a temática irá seguramente subir ao palco do confronto ideológico que se avizinha entre os concorrentes à presidência norte-americana. Na verdade, as diferentes perspectivas quanto à abordagem da questão por parte dos Democratas ficaram desde logo bem patentes durante as primárias, enquanto que, assim que os nomes de Obama e McCain se perfilaram como óbvios candidatos ao derradeiro escrutínio, ainda que não formalmente nomeados, logo vieram a lume repetidas críticas mútuas, tanto por acções como por omissões, quanto às propostas de futura gestão do conflito iraquiano.

Neste contexto, não será descabido questionar que papel desempenhará o debate sobre a presença militar americana no Iraque no resultado de uma eleição que se antevê disputadíssima. Determinante ou não, facilmente ombreará com outras preocupações de incontornável relevância para a sociedade americana – e, por extensão, para a plateia mundial – onde pontuam, por exemplo, as políticas económico-financeiras, educacionais e de apoio social.

Relativamente à questão do Iraque, as posições oficialmente assumidas pelos candidatos são apenas inteiramente coincidentes num único ponto, uma vez que ambos colocam em elevado destaque o profissionalismo e abnegação demonstrados pelas centenas de milhar de militares norte-americanos que servem ou já serviram naquele teatro de operações. Contudo, ambas as candidaturas partem também de um mesmo pressuposto para a resolução do conflito: a obrigatoriedade do controlo efectivo da situação por parte das autoridades iraquianas. No entanto, o caminho traçado para atingir esse objectivo, bem como o período de tempo necessário à sua consecução, são desde logo profundamente divergentes.

John McCain advoga uma política de continuidade, enfatizando que todos os sofrimentos causados e os recursos dispendidos não farão qualquer sentido se o desfecho se saldar por uma precipitada retirada das forças no terreno sem que existam garantias de uma completa derrota do ramo iraquiano da Al-Qaeda, condição fundamental de estabilidade governativa, sob a tutela de instituições democráticas – cuja estruturação passará pelo incontornável apoio das Nações Unidas -, capazes de afiançar a prosperidade económica e a segurança das populações. Para o candidato republicano, qualquer cenário substancialmente diferente implicará, mais tarde ou mais cedo, o regresso do poder militar norte-americano ao Iraque, com inimagináveis consequências aos mais variados níveis.

Estamos, pois, perante um projecto de longo prazo. A candidatura de McCain afirma que, do ponto de vista militar, tal propósito começa a vislumbrar-se com o crescente sucesso da estratégia de combate aos rebeldes iraquianos posta em acção pelo General David Petreaus, comandante das forças multinacionais desde o início de 2007. Os números mais recentes demonstram não só uma acentuada diminuição nas baixas das forças coligadas, mas também o decréscimo da violência sectária, sendo esta condicionante apresentada como indispensável ao processo de reconciliação nacional.

Quanto a Barack Obama, como seria expectável, a sua posição face à presença americana no Iraque é radicalmente discordante em relação ao rumo até hoje seguido. O seu programa eleitoral dedica-se a escalpelizar as razões que levaram ao impasse que considera existir presentemente: a total incapacidade da administração Bush de responsabilizar cada vez mais as autoridades locais pelas decisões sobre o destino do seu próprio país, situação que decorre da inexistência de uma eficaz linha de aproximação entre as facções políticas, étnicas e religiosas que compõem o espectro político‑social iraquiano.

Por outro lado, o senador do Illinois também tem chamado a atenção do eleitorado para outros factores que, interligados, reclamam uma profunda alteração da estratégia americana. Na sua óptica, os recursos de pessoal e material destinados a manter o nível de sustentabilidade das forças destacadas no Iraque compromete a possibilidade de enfrentar o terrorismo com êxito noutros cenários, nomeadamente no Afeganistão, onde a ameaça da Al‑Qaeda e as potencialidades bélicas dos Taliban parecem recrudescer de forma clara.

Obama propõe, portanto, a retirada das forças estacionadas no Iraque, a realizar de forma faseada à razão mensal de uma ou duas unidades de escalão brigada, isto é, até cerca de 7.500 homens/mês, o que projectaria uma permanência residual no terreno a partir de meados de 2010. A presença militar passaria então a ser assegurada exclusivamente por forças especiais, especificamente treinadas, equipadas e mandatadas para o desempenho de missões de combate anti-terrorista em apoio ao governo iraquiano e às suas forças. Tal conceptualização deveria constar com clareza no Status-of-Forces Agreement (SOFA), instrumento jurídico fundamental para a definição do estatuto operacional das forças da coligação liderada pelos Estados Unidos face à transferência de soberania para a administração iraquiana. Estranhamente, a discussão dos termos desse documento vai-se arrastando, ainda que, com alguma frequência, surjam responsáveis iraquianos a declarar a conclusão do acordo, correndo a administração Bush a emitir sucessivos desmentidos.

Embora os principais responsáveis militares se tenham já manifestado no sentido da inviabilidade prática do denominado “Plano Obama”, tudo indica que este continuará a ser o cavalo-de-batalha do candidato democrata no que respeita à questão iraquiana. Às reservas levantadas, Obama responde com a natural necessidade de criar uma conjuntura regional favorável ao sucesso do seu projecto, complementando-o com uma atitude mais exigente e pressionante no que concerne a um mais rápido domínio das rédeas do poder por parte do governo iraquiano, propósito que passa pela promoção da reconciliação nacional, dando continuidade em simultâneo ao treino e reequipamento das forças armadas e de segurança locais, sem esquecer o incremento, em comunhão com a comunidade internacional, dos esforços tendentes a enfrentar a crise humanitária que grassa em território iraquiano e nos países vizinhos, motivada pela existência de um elevado número de refugiados e deslocados.

Passadas sucintamente em revista as posições defendidas por ambas as candidaturas, facilmente se prevê que o debate será aceso, tanto mais que as acusações recíprocas se encontram já em franca subida de tom: a candidatura democrata aponta o perigoso imobilismo que McCain representa nesta matéria, não se cansando de lembrar a intervenção pública que Obama realizou logo em Outubro de 2002, ainda antes do Congresso ter dado luz verde à intervenção militar, onde terá previsto todas as vicissitudes que o tempo se encarregaria de concretizar nas premissas que hoje afectam o problema. Por seu turno, McCain destaca não só a desadequação do plano de Obama, mas sobretudo a gritante falta de firmeza do discurso do seu adversário sobre o Iraque, marcado por um trajecto de continuadas inflexões, ditadas pela evolução da agenda política do agora candidato democrata, numa tentativa de demonstrar que ao seu rival não restará outra opção que não seja esquecer rapidamente os seus irrealistas compromissos, caso venha a ser o próximo inquilino da Casa Branca. Em contrapartida, tenta retirar margem de manobra ao seu oponente reafirmando a firme convicção de nunca consentir que os seus argumentos voguem ao sabor de pressões conjunturais.

Os dados estão lançados e continuarão a rolar até Novembro…


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16 09 2008
Nuno Pires

Os meus sinceros parabéns ao Dr. Rui Roque pela excelência desta análise, a qual brilhantemente sumaria o essencial das teses em confronto acerca dos conflitos resultantes da luta contra o terrorismo islâmico, no contexto do debate das eleições presidenciais em curso nos Estados Unidos da América.

Apenas se juntam duas reflexões telegráficas acerca da relevância das questões internacionais nas eleições presidenciais da América e das causas da conflituosidade bélica neste início do século XXI.

I

A América real, bem distinta das fantasiosas representações que (para ambos os lados do espectro ético) o resto do mundo dela tende a compor, nunca deixou de afirmar nos ciclos eleitorais para a respectiva presidência, a sua essencial marca genética, sinteticamente traduzida na fórmula da denominada Doutrina Monroe: A América para os Americanos.

Filtrada dos seus elementos históricos, a expressão revela que o seu sentido intemporal é o da prevalência do elemento doméstico ou americano, decisivamente informado pela ideia da liberdade do sujeito e do grupo, seja enquanto tomada de consciência de uma identidade nacional própria, seja como reacção ao status quo da sujeição colonial europeia.

É, pois, esse relativo mas sensível alheamento do mundo (os cidadãos dum país de emigrantes têm, antes de mais, que saber esquecer) incontornável característica da afirmação da americanidade, que marca decisivamente os escrutínios para o futuro inquilino da célebre casa da Pennsylvania Avenue.

Neste contexto (e sendo certo que a ecologia não é ainda e apesar do denodados esforços de Al Gore, um tema político de primeira linha na América), é bem verdade que apenas duas questões de carácter internacional parecem ter alguma relevância no actual debate presidencial americano e isso tão-só porque ambas projectam os seus efeitos directamente sobre o cidadão eleitor. São as relativas aos vigentes conflitos armados resultantes da luta contra o terrorismo islâmico e à actual crise energética do petróleo.

II

É óbvia a constatação de que essas duas questões estão efectivamente associadas, mas mais interessante seria saber como elas efectivamente se articulam e determinar (se é que tal é realmente possível) qual o elemento prevalecente nessa equação de que são componentes a guerra contra o terrorismo islâmico e o novo choque petrolífero.

Em 1996, o pensador americano Samuel Huntington, na sua célebre e controvertida obra The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order, defendia a tese de que na nova ordem mundial (resultante do fim da queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria) a principal fonte dos conflitos bélicos seria de natureza cultural ou religiosa e não de natureza ideológica ou económica.

Saber como esta tese supera (ou não) a prova do real, passa também pela análise da resposta que o eleitorado americano às distintas propostas que os actuais candidatos presidenciais John McCain e Barack Obama agora lhes apresentam para tratar as assinaladas questões de âmbito internacional.

***

Importa porém e acima de tudo, não perder de vista que estas matérias não estão na primeira linha dos interesses políticos do eleitor presidencial americano, mais preocupado com matérias do foro exclusivamente doméstico, justamente assinaladas pelo Dr. Rui Roque na sua análise como as políticas económico-financeiras, educacionais e de apoio social.

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