O Iraque e as presidenciais norte-americanas

5 09 2008

Filipe Miranda Ferreira

Investigador Instituto Transatlântico Democrático

Uma notícia passou relativamente despercebida nos alinhamentos televisivos dos últimos dias.

A tristemente famosa província iraquiana de Al-Anbar foi alvo de uma transição de poder ao nível da segurança em que as autoridades iraquianas sucederam ás forças armadas americanas.

Al-Anbar é a maior província do Iraque, fazendo fronteira com a Jordânia, Síria e a Arábia Saudita. Ao contrário da maioria do sul que é xiita, esta província é sunita, como também o é o seu governo provincial.

Importa referir que é a única autoridade provincial não xiita do Iraque.

Desde o início da intervenção aliada no Iraque esta província foi a que mais resistiu aos norte-americanos, não sendo superada por nenhuma outra região em violência nem em baixas causadas.

Estes insurgentes eram compostos por elementos da Al-Qaeda, por ex-militantes do partido Baas iraquiano e por membros das tribos sunitas.

Foi nesta província que tiveram lugar algumas das operações mais violentas da insurreição. Ainda temos todos na memoria as operações militares que levaram à tomada das cidades de Fallujah e Ramadi.

Em 2006, relatórios militares afirmavam claramente que esta província estava fora de controlo e a derrota militar estava iminente. A segurança era inexistente e não garantia o regular funcionamento das instituições. Estas ou não funcionavam ou estavam infiltradas de insurgentes e jihadistas.

Contudo, em finais de 2006 a situação começou paulatinamente a mudar. O excesso de violência da Al-Qaeda, que resultou em muitas mortes de muçulmanos alienou o apoio das elites das tribos sunitas abrindo assim espaço para que estas negociassem com o governo central iraquiano e com os EUA.

A cooperação entre o exército iraquiano e o americano funcionou de facto, sendo as operações conjuntas um dos principais factores que contribuíram para o volte-face nesta província. Simultaneamente iniciou-se um ambicioso programa de treino e equipamento de forças de segurança locais.

Igualmente teve início um programa de reconstrução de equipamentos como escolas, correios, esquadras de polícia entre outros que começou a normalizar a vida, garantindo assim uma melhor percepção do papel dos norte-americanos junto da sociedade civil iraquiana.

Estes esforços fizeram com que a situação melhorasse consideravelmente.

Esta estratégia de contra-insurreição foi reforçada com o aumento do número de efectivos americanos no terreno. Também deu visibilidade a esta estratégia a chegada ao comando das forças norte-americanas no Iraque do General David Petraeus,

É de referir que a nova doutrina americana de contra-insurreição não teve de início uma boa recepção junto da administração Bush, tendo sido defendida, entre outros, pelo senador John McCain.

Este, devido á sua experiência anterior (Vietname) sabia qual o risco de uma saída desonrosa dos EUA de uma teatro de operações tão importante como o Iraque. Foi o maior defensor do plano Petraeus junto da Casa Branca, do Pentágono e do Senado.

A diferença de percepção relativamente à questão iraquiana entre Barack Obama e John McCain é certamente uma das grandes diferenças destes candidatos presidenciais.

Desde 2002 que a posição destes dois senadores tem sido extremamente clara.  Barack Obama foi um dos poucos que votou contra a intervenção americana enquanto que John McCain votou a favor. Ambos criticaram duramente a gestão pós-invasão, sendo que para Barack Obama a presença americana no Iraque não tinha razão de ser, enquanto que as criticas do republicano versavam mais sobre o deficiente planeamento pós-invasão.

Barack Obama foi e continua a ser um feroz opositor da estratégia do “surge”, tendo esta sido defendida até à exaustão por McCain. Para Barack Obama o Iraque é a guerra errada no local errado, defendendo um calendário para a retirada do destacamento americano no Iraque, redireccionando parte dele para o combate aos Talibans e à Al-Qaeda no Afeganistão.

Já o candidato republicano, aproveitando a melhoria dos resultados no terreno, afirma que é possível uma vitória americana no Iraque e que a retirada como os democratas defendem iria por em causa o destino de uma estratégia americana para a região, sendo impossível conter as aspirações iranianas, isolando assim ainda mais o aliado natural dos EUA na região: Israel.

John McCain tem beneficiado da normalização da situação no Iraque, pois assim diminuiu a contestação da opinião pública contra a guerra e demonstra ao povo americano que com os equipamentos certos e com a estratégia adequada uma vitória é possível.

Em suma, qualquer situação extraordinária que ocorra no Iraque até ás eleições de Novembro pode beneficiar ou prejudicar qualquer um dos candidatos, devido à clareza das suas posições sobre este assunto. De facto, o Iraque é um dos pontos de demarcação destas duas candidaturas, cada uma representando não apenas a posição do seu partido, mas também uma base social de apoio diferenciada.

Em Novembro saberemos qual a visão que irá prevalecer.

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